Esse blog é fruto é de uma Oficina que ministrei em Tatuí, de abril a novembro de 2011,por meio da Oficina Grande Otelo, espaço da Secretaria de Estado da Cultura.Oficina esta que foi realizada numa das salas do Museu Paulo Setúbal.SueliAduan









quinta-feira, 31 de maio de 2012

O buquê




A fina garoa que caía naquele final de tarde, só se prestava para umedecer, além das almas daquela multidão, os tenros botões de rosa do buquê, que segurava, firmemente, em seus braços. Sinônimo de um milhão, e mais um pouco, de desculpas. Nem mesmo a friagem que sentiu, quando seus pés pisaram na poça d’água, conseguiu gelar seu coração, mas a fez refletir.
Até quando suportar mais mentiras, mais enganos, mais botões de rosa apagando traições. Movimento inconsciente, seus braços se estenderam para que um taxi parasse. Mais um final de dia, mais uma volta solitária para casa e mais um novo recomeçar. Seu coração estava quase cedendo, quando os olhos verdes do motorista perguntaram para onde iria. Alguns infinitos segundos se passaram até que a resposta viesse:
- Para a tua cama.


                                                                                    Ary Roberto


terça-feira, 22 de maio de 2012

O boto


Crente em sua fé inabalável, o povo acreditou que na beira do igarapé, o boto se fez homem e engravidou a pobre donzela.  Além da lua, eu fui a única testemunha.  Mas eu juro, foi a donzela quem me seduziu.

                                         
                              Ary Roberto

domingo, 20 de maio de 2012

O sepultamento


Eu não tinha mais dúvidas de que tudo estava consumado.  Quando me olhei no espelho me dei conta da triste realidade. Meu rosto transfigurado, a expressão de quem acabara de sair de um velório insistia em permanecer.

Perdida na solidão de um lavabo, abri a bolsa na procura de algo para maquiar a minha tristeza. Quando encontrei um batom, esbarrei meus dedos naquela maldita certidão. Como pode uma simples folha de papel acabar com tantos anos de convivência e felicidade. Senti a garganta sendo apertada por um forte nó, meus olhos estavam prestes a se encherem de lágrimas. Respirei profundamente e me contive. Uma sensação de ódio e vingança invadiu meus pensamentos. Aquela sirigaita não perde por esperar.

                                                                                                      Ary Roberto

sábado, 19 de maio de 2012

O fio da navalha



Não que a vida daquele casal fosse um inferno. O fato é que não viviam bem. Mas aquele dia, da galinha ao molho pardo, foi a gota d’água. Flagrou a mulher degolando a ave com sua navalha de estimação. Ainda se fosse degolar algo mais interessante, mas galinha ao molho pardo.  Ele nunca havia comido e jamais comeria. O bate-boca começou cedo. Por pouco não se pegaram nos tapas. Desorientado, pegou a navalha e saiu atrás de um afiador.  Voltou mais irado ainda, porque o infeliz não havia dado o fio como ele queria. Abriu as portas e começou a fazer o que tinha de ser feito. Já estava na quarta navalhada quando um moleque entrou gritando:
- Pare, seu Alcides. É a sua mulher,....é a sua mulher que pediu pro senhor fechar a barbearia e ir almoçar. Ela mandou avisar que fritou dois ovos pro senhor.

                                                                                                          Ary Roberto


Nota de falecimento


Em seu quartinho da pensão, recebeu um telegrama. Dizia que a tia, velha, solteirona e rica, havia falecido.  Quase morreu de alegria.


                                                                 Ary Roberto

A restauração

Confesso que quando leu a nota sobre a restauração do velho Grupo Escolar, ficou possuído pela ansiedade de um adolescente. Nem sei onde arranjou coragem e forças para tomar a decisão de revê-lo, talvez, o resgate das memórias. Perdeu o fôlego ao estar frente a frente com o passado intacto. A sensação era de que o tempo deixara de existir, de que ele era aquele menino que escorregava pelo corrimão, livre dos medos que hoje o acompanham e dos fantasmas que o rondam. Sentiu-se forte, livre, belo e desejado. Um guerreiro. Mas foi só por um instante. Depois se apoiou na bengala e voltou ao asilo.

                                                                                                                                                                                                                                                                     Ary Roberto

A pianista






Perto da minha casa morava uma pianista. E toda vez que eu passava por aquela travessa, isso desde a minha infância, me deliciava com a sua música. Ela tocava, tocava, tocava, e o som dos seus acordes ao coração de todos tocava.
Hoje, após tantos anos, passei pela mesma travessa. A casa fechada. Sem som e sem luz. Um silêncio sepulcral. A pianista não estava mais  no meio de nós. Eu senti uma profunda tristeza. Mas, ela não. Havia se transformado numa infinita clave de sol.



                                                       Ary Roberto

Iara , mãe-d’água



Ah, disso eu me lembro muito bem! Eu pescando na beira do lago, final de tarde, lusco-fusco. Os poucos raios de sol ainda refletiam nas águas quando ela emergiu. Uma deusa. Os seios desnudos, firmes e empinados. O corpo roliço e dourado, um convite. Seu canto eram gritos de clamor por sexo. Hipnotizado pelo seu olhar, me despi e me atirei aos braços de Iara. No início fingiu não me querer, até relutou, mas acabou se entregando aos meus desejos e carícias, passiva, feito fêmea. Depois do ato, Iara voltou para o fundo do lago. E eu, até hoje, me encontro no fundo de uma prisão. Dizem que foi estupro seguido de homicídio. Mas disso eu não me lembro. 


                                                                                                                                         Ary Roberto